Endometriose torácica: sintomas, diagnóstico e tratamento de uma forma rara da doença

11/03/2026

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Dr. Frederico Corrêa

A endometriose torácica é uma manifestação rara e complexa da endometriose, na qual o tecido endometrial ectópico se implanta fora da cavidade pélvica, principalmente no diafragma, pleura ou parênquima pulmonar. 

Essa condição, também conhecida como síndrome da endometriose torácica (SET), afeta predominantemente mulheres em idade reprodutiva e manifesta-se de forma cíclica, sincronizada com o ciclo menstrual. Embora subdiagnosticada, o seu reconhecimento precoce é essencial para evitar complicações graves, como pneumotórax recorrente ou hemotórax.

Neste artigo, vamos entender o que é a endometriose torácica, os seus sintomas respiratórios característicos, o desafiador percurso diagnóstico envolvendo exames de imagem e procedimentos invasivos, as opções terapêuticas modernas e a importância de uma abordagem multidisciplinar para lidar com essa enfermidade.

O que é a endometriose torácica e como ela se manifesta?

A endometriose torácica ocorre quando células endometriais, semelhantes ao revestimento interno do útero, migram e se implantam em estruturas torácicas, como o diafragma (mais comum), pleura visceral ou parietal e, menos frequentemente, o parênquima pulmonar. 

Essa migração segue teorias como a menstruação retrógrada ou disseminação linfática ou vascular, levando a implantes que respondem ao ciclo hormonal, causando inflamação, sangramento e formação de aderências ou perfurações diafragmáticas durante a menstruação.

Essa forma é considerada a localização extrapélvica mais frequente da endometriose, porém permanece rara: representa menos de 3-6% dos pneumotórax espontâneos em mulheres na população geral, mas atinge 18-33% (ou até 31,4% em uma série de 156 mulheres pré-menopáusicas submetidas a cirurgia para pneumotórax recorrente).

Afeta o hemitórax direito em 85-90% dos casos devido à anatomia e ao fluxo peritoneal preferencial. Embora rara e complexa, o diagnóstico precoce evita complicações graves como o pneumotórax catamenial (recorrente dentro de 72 horas do início da menstruação), hemotórax ou hemoptise potencialmente ameaçadores à vida.

Sinais de alerta: identificando os sintomas respiratórios cíclicos

Os sintomas da endometriose torácica tipicamente surgem ou se intensificam em sincronia com o ciclo menstrual, geralmente nas 72 horas que antecedem ou sucedem o início da menstruação, refletindo a resposta hormonal dos focos ectópicos. 

Essa ciclicidade é o principal indício clínico e diferencia a condição de patologias pulmonares crônicas ou agudas não relacionadas ao ciclo. Dentre alguns sintomas, temos:

  • Dor no ombro direito (referida, por irritação do nervo frênico pelo diafragma);
  • Dor torácica cíclica ou pleurítica, frequentemente unilateral direita;
  • Tosse com sangue (hemoptise), geralmente leve a moderada;
  • Falta de ar (dispneia) ou sensação de opressão torácica súbita, podendo evoluir para pneumotórax.

Esses sinais são frequentemente confundidos com problemas pulmonares comuns, como infecções respiratórias, asma ou pneumotórax idiopático, retardando o diagnóstico em meses ou anos e gerando complicações, as quais, com um correto diagnóstico e tratamento poderiam ser evitadas.

A jornada do diagnóstico: exames de imagem e sensibilidade clínica

Diagnosticar a endometriose torácica é desafiador devido à localização atípica dos implantes, sintomas intermitentes e sobreposição com outras condições respiratórias. 

A suspeita clínica surge da história cíclica associada a sintomas pélvicos ou infertilidade, mas exige correlação com exames de imagem e, frequentemente, procedimentos invasivos para confirmação histológica.

Ressonância Magnética

A RM é o exame de imagem mais sensível para detectar endometriose diafragmática e pleural, permitindo visualização de lesões hiperintensas em sequências T1/T2, perfurações e nódulos, especialmente com protocolos dedicados ao tórax e diafragma. É superior à tomografia para tecido mole e planejamento cirúrgico.

Tomografia de Tórax

A TC de tórax identifica pneumotórax, hemotórax, nódulos pulmonares (0,5-3 cm), bolhas ou espessamentos pleurais, principalmente no ápice direito ou bases diafragmáticas. Pode mostrar nível hidroaéreo em hemopneumotórax catamenial, mas tem menor sensibilidade para implantes pequenos (<5 mm). É útil em situações de emergência.

O papel da Videotoracoscopia

A videotoracoscopia (VATS) é o padrão-ouro para diagnóstico definitivo, permitindo inspeção direta do diafragma (perfurações “em queijo suíço” comuns), pleura e pulmão, com biópsia para confirmação de glândulas e estroma endometrial (ou estroma isolado positivo para receptores hormonais). 

Em séries cirúrgicas, detecta endometriose torácica histológica em cerca de 25-30% dos casos de pneumotórax em mulheres referenciadas. 

A experiência de 25 anos dos médicos da Endometriose Brasília auxilia na correlação precisa entre queixas respiratórias e ginecológicas, otimizando o diagnóstico integrado e também o tratamento dessa enfermidade.

Tratamentos modernos: da supressão hormonal à cirurgia

O manejo da endometriose torácica combina abordagens clínicas e cirúrgicas personalizadas. O tratamento clínico visa suprimir a atividade hormonal ovariana e estabilizar os focos ectópicos por meio de anticoncepcionais orais combinados, progestagênios contínuos, agonistas ou antagonistas de GnRH, ou inibidores de aromatase.

A cirurgia, preferencialmente por videotoracoscopia assistida (VATS), objetiva a remoção completa dos implantes, reparo de perfurações diafragmáticas (ressecção preferida à plicatura para histologia), ressecção de nódulos pulmonares (wedge) e pleurodese (abrasão mecânica ou talco) para prevenir pneumotórax recorrente. 

Taxas de recorrência pós-cirurgia isolada variam, caindo significativamente com terapia hormonal em conjunto com o pós-operatório por 6-12 meses (ou mais em reoperações). A escolha depende da gravidade dos sintomas, frequência de recorrências, desejo de fertilidade e histórico da paciente.

A necessidade de uma equipe multidisciplinar integrada

O diferencial no tratamento da endometriose torácica reside na integração de especialistas, pois a doença afeta simultaneamente sistemas ginecológico e torácico. Então, todo o cuidado é necessário para uma boa recuperação.

Na Endometriose Brasília, a colaboração estreita entre ginecologista especializado em endometriose profunda/extrapélvica e cirurgião torácico experiente permite planejamento simultâneo de videolaparoscopia (para lesões pélvicas/diafragmáticas) e VATS em um único tempo anestésico quando indicado, minimizando riscos e otimizando resultados.

Essa abordagem integrada garante avaliação completa (pélvica + torácica), manejo hormonal coordenado, suporte psicológico e seguimento unificado, reduzindo recorrências e complicações. Ter todas as especialidades em um só lugar oferece segurança, agilidade e conforto à paciente, especialmente em casos complexos com associação pélvica-torácica.

Conclusão: Resgatando a qualidade de vida e a segurança respiratória

Não ignore dores torácicas ou falta de ar que surgem ou pioram durante a menstruação. Elas podem sinalizar endometriose torácica, uma condição rara, mas tratável, que impacta significativamente a saúde respiratória e a qualidade de vida. 

Com diagnóstico precoce e manejo multidisciplinar adequado, é possível controlar sintomas, prevenir pneumotórax recorrente e restaurar bem-estar. Se você apresenta sintomas cíclicos respiratórios associados à endometriose pélvica conhecida ou suspeita, agende uma avaliação especializada. 

Na Endometriose Brasília, nossa equipe com ampla experiência está preparada para oferecer diagnóstico preciso e tratamento integrado. Marque agora mesmo a sua consulta para manter a saúde em dia.